terça-feira, 21 de março de 2017

Pretérito mais que imperfeito

Tudo que é.
Era.
Tudo o que será.
Seria.
O que ele seja.
Se ele fosse.
A morte é injusta até com nosso conhecimento de conjugação verbal.

terça-feira, 14 de março de 2017

! sobre nos sentirmos a imensidão


Simples dois momentos na vida em que nos sentimos como se o mundo fosse pequeno demais.

(1)Quando estamos em uma alegria que beira o êxtase. Andamos na rua segurando gritos. Olhamos para as pessoas como quem olha do alto, das nuvens. Nossa felicidade é maior. Tudo se inunda. Tudo é irrisório, ínfimo, irrelevante e qualquer sinônimo que comece com “i” possível. 
Somos capazes. Inabaláveis.


(2)Quando comemos exageradamente. A calça se aperta em qualquer espaço vago. Ponto constrangedor de abrirmos os botões.
O ar fica denso e escancaramos a janela, se possível. A temperatura dentro de nós se transforma no famoso “Rio 40°”.
Respiramos o mais fundo que podemos, achando que mais ar nos pulmões aumentaria o espaço dentro do corpo. 



E esse segundo momento inclui o primeiro, a da alegria que beira o êxtase. 

*****

Esse texto é um recorte do "Caderno da Doida" - meu caderninho de aleatoriedades não censuradas. 

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Um abraço para o mais novo leitor do blog. Leandro, obrigada por me obrigar a colocar a parte funcionante do cérebro para pensar e escrever. 

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Meu afeto e suas cebolas

Duas informações sobre cozinhar: é uma demonstração de afeto e é completamente sexy. Bom, pelo menos nessa minha cabeça isso faz um completo sentido (mas não vamos falar sobre o fato de ser sexy, não nesse texto).
Ter interesse em saber o que a pessoa gosta e se determinar a passar aquele tempinho do seu dia dedicado a isso. Cozinhar é, basicamente, suar, cortar a mão, se queimar e ficar com cheiro de tempero por gostar da pessoa. E passar por tudo isso, sem dúvidas, é uma demonstração de afeto.
Cozinhar para alguém é como dar o melhor pedaço da galinha para a mais importante da mesa. É escolher quem ganhará o primeiro pedaço do bolo da sua festa de aniversário.
E sempre quando penso no nosso namoro, penso que você detestava cebolas. Talvez, só talvez, seu pior defeito. Eu detesto palmito em qualquer coisa, mas tolero com paciência. Detesto uva passa na farofa, mas consigo superar com uma pitada de rancor. Mas detesto, de forma imperdoável, maçã na salada de maionese. Mas adoro cebolas desde sempre na vida e em (quase) tudo. E se a vida é brincalhona, ela foi brincalhona em unir meu amor com seu pavor.
 No início, quando estávamos nos conhecendo, insisti e picava pequeno. Gostava muito de você, mas adorava as cebolas. Falava “Juro, você nem vai notar”, ou simplesmente não falava nada, porque “Vai que é só implicância, né?”. Foi uma tarefa inútil, você tinha aversão a elas e as encontrava em todos os lugares. Se eu fazia esforço para deixa-las, você passava uma vida para tirá-las.
Com o tempo, minhas comidas eram sempre pensadas em você. Acho que foi assim com meu afeto também. Às vezes, esquecia de comprá-las por me policiar tanto no cuidado contigo. Notava que essa coisinha cresceu em você também quando criou a condição: “Pode colocar cebola, desde que seja ralada”. Dava trabalho? Dava. Era a mesma coisa? Não era. Mas foi um cuidado seu no cuidado meu.
A gente se gostou muito e na mesma proporção que você as detestava.


E tudo caminhou bem, até que um dia você não se importou mais e colocou maçã na salada de maionese.  E não teve perdão.

Meu afeto e suas cebolas

Duas informações sobre cozinhar: é uma demonstração de afeto e é completamente sexy. Bom, pelo menos nessa minha cabeça isso faz um completo sentido (mas não vamos falar sobre o fato de ser sexy, não nesse texto).
Ter interesse em saber o que a pessoa gosta e se determinar a passar aquele tempinho do seu dia dedicado a isso. Cozinhar é, basicamente, suar, cortar a mão, se queimar e ficar com cheiro de tempero por gostar da pessoa. E passar por tudo isso, sem dúvidas, é uma demonstração de afeto.
Cozinhar para alguém é como dar o melhor pedaço da galinha para a mais importante da mesa. É escolher quem ganhará o primeiro pedaço do bolo da sua festa de aniversário.
E sempre quando penso no nosso namoro, penso que você detestava cebolas. Talvez, só talvez, seu pior defeito. Eu detesto palmito em qualquer coisa, mas tolero com paciência. Detesto uva passa na farofa, mas consigo superar com uma pitada de rancor. Mas detesto, de forma imperdoável, maçã na salada de maionese. Mas adoro cebolas desde sempre na vida e em (quase) tudo. E se a vida é brincalhona, ela foi brincalhona em unir meu amor com seu pavor.
 No início, quando estávamos nos conhecendo, insisti e picava pequeno. Gostava muito de você, mas adorava as cebolas. Falava “Juro, você nem vai notar”, ou simplesmente não falava nada, porque “Vai que é só implicância, né?”. Foi uma tarefa inútil, você tinha aversão a elas e as encontrava em todos os lugares. Se eu fazia esforço para deixa-las, você passava uma vida para tirá-las.
Com o tempo, minhas comidas eram sempre pensadas em você. Acho que foi assim com meu afeto também. Às vezes, esquecia de comprá-las por me policiar tanto no cuidado contigo. Notava que essa coisinha cresceu em você também quando criou a condição: “Pode colocar cebola, desde que seja ralada”. Dava trabalho? Dava. Era a mesma coisa? Não era. Mas foi um cuidado seu no cuidado meu.
A gente se gostou muito e na mesma proporção que você as detestava.


E tudo caminhou bem, até que um dia você não se importou mais e colocou maçã na salada de maionese.  E não teve perdão.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Boa noite

–Boa noite - falei, os dois já se encontravam ali esperando.
–Boa noite - ela falou antes.
–Boa noite - ele fala depois.

Entramos no elevador. Ele balançando as chaves. Ela olhando o celular. E eu me perguntando se ela não apertaria o botão do próprio andar. Talvez tenha escutado o que pensei e logo sinaliza que irá para o sexto.

– Boa noite - ele se despede no primeiro andar.
– Boa noite - eu respondo.
– Boa noite - ela responde.

Até que, muito brevemente, chegamos ao meu destino.

– Boa noite. - eu me despeço no segundo andar.
Ela não me respondeu.
Então tá.