quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Insegurança

É como caminhar em uma planície sólida com a desconfiança de quem anda sobre um lago com a superfície tomada por uma camada fina de gelo que pode quebrar a qualquer momento. É acreditar tanto a ponto de negar tudo. É não querer planejar para a próxima semana. É medo de, em algum momento, se notar só novamente. Porém, dessa vez, existia alguém que prometeu segurar sua mão quando fosse cair e disse que você não está sozinha. E a caminhada já faz parte do sonho, mas ficaria mais fácil se acreditasse estar segura, por mais que nunca tivesse tido alguém que fizesse isso por você, mas sempre é sempre.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

uma pausa de realidade

A vida é assim, você vai tomando rumos e nem nota. As coisas simplesmente vão acontecendo, você acorda, estuda, trabalha e segue ocupada demais para reparar no que, de fato, acontece contigo nessas 24 horas que te obrigam a viver, uma atrás da outra, sem pausa pro café.




E um dia, como se saísse de um transe, você se pega enfiando a cabeça de uma pessoa em um balde, fazendo com que ela sufoque; e tira, quando ela quase para de se movimentar, dando uns segundos para ela respirar antes que você volte, em tom de tortura, a enfiar a cabeça dela na água.

Você não tem ideia de como chegou a esse ponto, você não tem ideia de como voltar atrás.


*****
O reino entre nós!

sábado, 6 de novembro de 2010

Inútil Paisagem


"De que servem as flores que nascem pelos caminhos?
Se meu caminho sozinho é nada..."

Foi nosso primeiro dia morando juntos, nossa casa era pequena e havíamos pensado na decoração de forma quase estratégica: resolvemos deixar o computador no quarto para seus trabalhos e meus estudos, achamos, a princípio, que criaria menos problemas assim. Conseguimos colocar uma boa mesa na cozinha, você sabia como gosto de conversas de cozinha e como me inspiram intimidade, tanto que foi você que sugeriu dessa forma. E nossa sala, com um sofá confortável, mas apenas um sofá, e nossas poltronas,eram duas,uma para cada um.
Aleguei achar um charme as poltronas, você concordou e disse que deviam ser ótimas para leituras, suas leituras viciadas, e assim ficou: nossa sala, um sofá confortável e nossas poltronas separadas, opostas e lindas.
Lembro que cozinhei macarrão, era a única coisa que eu sabia fazer bem, mas o seu paladar defeituoso aceitava qualquer outra coisa, e continuaria aceitando qualquer coisa, mesmo depois de anos.
Ligamos o som, rimos um pouco ao decidir algumas coisas ainda não terminadas, pegamos nossos livros prontos para protagonizar uma cena de um filme cult qualquer. Seu livro, meu livro, minha poltrona, sua poltrona.
Eu não prestava atenção no que lia, você leu a primeira página e parou olhando pra mim. Logo que notei, sorri, fiquei quieta e rindo, com um livro e minha poltrona.
Nesse momento senti a ideia das poltronas completamente imbecil. Saímos dos nossos lugares, sem nem precisar de convite, deitamos no nosso sofá juntos, com nossos livros juntos para nosso momento juntos.
Nossas poltronas charmosas para leituras viciantes, bom, elas nunca mais foram usadas.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

-Enunciação.

- Eu te amo.
-Também te amo.
-Mas não me entenda errado, não é o que você está pensando.
-Eu disse que também te amo.
- Certo, me passa o café?

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Os mesmos.

Tudo o que vi muita gente já viu e o que pensei muita gente já sentiu. Das coisas que neguei há quem de mim riu. Tudo o que passei foi um filme que tanta gente já viu. E viver não deixa de ser complicado, mesmo sendo um filme passado e reprisado, com personagens diferentes, nas mesmas canções de Elis Regina em versão de Nós 4.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Três sobre peixinhos

Como pode um peixe vivo viver fora da água fria?

Velha História,
por: Mário Quintana.

Era uma vez um homem que estava pescando, Maria. Até que apanhou um peixinho! Mas o peixinho era tão pequenininho e inocente, e tinha um azulado tão indescritível nas escamas, que o homem ficou com pena. E retirou cuidadosamente o anzol e pincelou com iodo a garganta do coitadinho. Depois guardou-o no bolso traseiro das calças, para que o animalzinho sarasse no quente. E desde então, ficaram inseparáveis. Aonde o homem ia, o peixinho o acompanhava, a trote, que nem um cachorrinho. Pelas calçadas. Pelos elevadores. Pelo café. Como era tocante vê-los no "17"! o homem, grave, de preto, com uma das mãos segurando a xícara de fumegante moca, com a outra lendo o jornal, com a outra fumando, com a outra cuidando do peixinho, enquanto este, silencioso e levemente melancólico, tomava laranjada por um canudinho especial... Ora, um dia o homem e o peixinho passeavam à margem do rio onde o segundo dos dois fora pescado. E eis que os olhos do primeiro se encheram de lágrimas. E disse o homem ao peixinho: "Não, não me assiste o direito de te guardar comigo. Por que roubar-te por mais tempo ao carinho do teu pai, da tua mãe, dos teus irmãozinhos, da tua tia solteira? Não, não e não! Volta para o seio da tua família. E viva eu cá na terra sempre triste!..." Dito isso, verteu copioso pranto e, desviando o rosto, atirou o peixinho n’água. E a água fez redemoinho, que foi depois serenando, serenando... até que o peixinho morreu afogado...

por: Carlos Drummond de Andrade

“Faço e ninguém me responde
esta perguntinha à-toa:
Como pode o peixe vivo
morrer dentro da Lagoa?”

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Mesma moeda

Se falam “Você é especial”, sorrio e me pergunto, “ Mas quem nesse mundão de meu Deus não é especial?”.
E no mesmo, se me disserem que sou desprezível, me pergunto se nesse mesmo mundão de meu Deus existe alguém que o não seja.

sábado, 16 de outubro de 2010

Crônica do Amor

( por: Arnaldo Jabor)


Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo a porta. O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão. O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar.
Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referenciais.Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca. Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera.
Você ama aquela petulante. Você escreveu dúzias de cartas que ela não respondeu, você deu flores que ela deixou a seco. Você gosta de rock e ela de chorinho, você gosta de praia e ela tem alergia a sol, você abomina Natal e ela detesta o Ano Novo, nem no ódio vocês combinam.

Então?
Então, que ela tem um jeito de sorrir que o deixa imobilizado, o beijo dela é mais viciante do que LSD, você adora brigar com ela e ela adora implicar com você. Isso tem nome.
Você ama aquele cafajeste. Ele diz que vai e não liga, ele veste o primeiro trapo que encontra no armário. Ele não emplaca uma semana nos empregos, está sempre duro, e é meio galinha. Ele não tem a menor vocação para príncipe encantado e ainda assim você não consegue despachá-lo.
Quando a mão dele toca na sua nuca, você derrete feito manteiga. Ele toca gaita na boca, adora animais e escreve poemas.

Por que você ama este cara?
Não pergunte pra mim; você é inteligente. Lê livros, revistas, jornais. Gosta dos filmes dos irmãos Coen e do Robert Altman, mas sabe que uma boa comédia romântica também tem seu valor. É bonita. Seu cabelo nasceu para ser sacudido num comercial de xampu e seu corpo tem todas as curvas no lugar. Independente, emprego fixo, bom saldo no banco. Gosta de viajar, de música, tem loucura por computador e seu fettucine ao pesto é imbatível. Você tem bom humor, não pega no pé de ninguém e adora sexo. Com um currículo desse, criatura, por que está sem um amor?
Ah, o amor, essa raposa. Quem dera o amor não fosse um sentimento, mas uma equação matemática: eu linda + você inteligente = dois apaixonados. Não funciona assim.
Amar não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC. Ama-se justamente pelo que o Amor tem de indefinível.
Honestos existem aos milhares, generosos têm às pencas, bons motoristas e bons pais de família, tá assim, ó! Mas ninguém consegue ser do jeito que o amor da sua vida é!

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Para acompanhar

Fico quieta, distante, sentada. Não me importo, mas tem umas pessoas olhando para meu jeito largado com um fone de ouvido, acho que elas esperavam que eu fosse diferente, me queixo, mas não posso me importar, fico quieta, distante e sentada, sem a mínima vontade de mudar a pose e parecer gente. Às vezes fecho o meu livro e sorrio para alguns para te acompanhar nesse seu jeito, fico mais bonita para impressionar, mas não consigo ser muito diferente, mas eu acompanho...




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Porque a Gabi gostou então está aqui. Ah sim, não gostei não. Mas ela gostou, então está gostado.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Nada rima com ônibus

Ele foi tão simpático que tirei o fone de ouvido para escutá-lo falando de todos os seus doze netos.
A garota chorava quieta, eu ignorei, era cedo demais para me meter na vida dos outros. Quem consegue chorar seis horas da manhã?
Ela fala alto no telefone, diz que sua filha nunca casará com um homem branco, ela ri, ela ri, ela ri. Fico sem paciência, quem ri tanto seis horas da manhã?
Ele fedia a álcool.
Ele se alisava ao meu lado, mudei de lugar assim que pude.
Dormi.
Uma travesti sentou ao lado de um homem. O homem se encolheu, a travesti se encolheu.
Motorista louco, freou tão bruscamente que uma mulher caiu em cima de mim e me machuquei.
Um alguém com um irresistível cheiro de perfume, não consegui saber de onde o cheiro vem.
-É um assalto!
- A senhora quer que eu segure suas sacolas? - uma pessoa gentil. No dia seguinte a gentileza se inverte ao remetente.
Um casal se beija, fico olhando.
-Qual o plural de ônibus,mãe?
Começou a chover e não consegui fechar a janela.
O trocador é uma simpatia.
A trocadora é muito estranha.
A vista é tão linda...
Pensando em você, passei do ponto que devia saltar...
O cara belo me encara. Ou sou eu que não consigo parar de olhá-lo?
Minhas moedas caem no chão e se perdem para sempre.
Sou a primeira a entrar no ônibus e a última pessoa que entra é uma mulher que segura uma criança. Rio da sacanagem, levanto e faço a viagem em pé.
Está lotado. Fone de ouvido. Tudo mais suportável.
Cangurus. SUS. Urubus. Ônibus.
Deus deve amar isso aqui.
Enquanto escrevo,uma garota ao meu lado espia.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

! sobre os dias que esperamos

Ah, como acredito nessa coisa de felicidade! Acredito que existam os bons tempos. Acredito porque eles estão presentes de uma forma muito intensa nos melhores lugares dentro de mim
Mas apesar dessa minha esperança, que vem como um leve vento no rosto em dias quentes, sei que ainda existirão aquelas noites ruins que a gente deseja poder não pensar por medo de não sermos fortes para aguentar, no entanto, essas noites serão breves e não estaremos sós.
Será como acordar de um sonho ruim sentindo um gostoso cheiro de café, e a única lembrança estará em nossos olhos um pouco vermelhos e um novo dia, um novo bom dia, pela frente. Nesses bons tempos as coisas não serão livres das nossas velhas e grandes confusões, mas tudo ficará mais fácil de suportar.



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Não estou deixando o blog de lado, é que esse mês não ta rolando aquele surto criativo gostoso. Continuo apaixonada por isso aqui, não largo nem a pau. E obrigada por não largarem também, obrigada mesmo mesmo. Estamos chegando ao 3º ano do blog!

quinta-feira, 29 de abril de 2010

E São Sempre As Mesmas Coisas

por: Gabriela Leite


E são sempre as mesmas coisas;
Os cílios negros piscando fixadamente despreocupados
A respiração lenta e oscilante; a boca entreaberta esperando algo
O cabelo sempre bagunçado entregando o momento

Ah, meu querido
Seu hálito, um dos meus gostos preferidos
Seu tórax, o melhor lugar pra se estar
Seus braços, onde não há dor nem frio

Desculpe incomodá-lo com meus olhares descarados
É que eu não resisto ao seu rosto tão belo
Vem cá, chega mais perto; deixa eu me fantasiar em você

Ah, meu querido
A vida está ai e nós somos só aprendizes
Tenha paciência, pois um dia tiraremos essas botas para balançar os pés na água
Deita sua cabeça nas minhas pernas e esquece um pouco de tudo

Os sorrisos, as palavras sem importância que são tão importantes
Vem escutar a música do coração: é linda, linda pra quem sabe ouvir
Passos leves e tranqüilos em silêncio nos transportam daqui

Ah, meu querido
Queremos muitas coisas. Queremos brincar
Será mesmo brincar? Nunca sabemos aonde começa, nem onde ela acaba
Mas sabemos que somos carinhosos. E ficamos felizes

Ah, meu querido.


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Gosto demais quando a Gabi escreve essas coisinhas assim e duvido que alguém me contrarie e diga que não gosta. Agradecimentos pela colaboração ao blog, obrigada pequena Gabriela notável.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Pesadelos

"E talvez,se tem que durar,

vem renascido o amor

bento de lágrimas."

(Los Hermanos- O vento)


Sufocando, é assim que ela acorda. As mãos dele apertavam forte o seu pescoço e ela começa a se debater tentando faze-lo parar. Não consegue gritar, mas um de seus tapas o desperta e ele a solta em um susto. Ela corre para o banheiro, ele senta na ponta da cama chorando.
Encarando o espelho e se apoiando na pia ela retoma todo o ar, repara as marcas das mãos em seu pescoço, está doendo. Continua respirando o mais fundo que dá, pouco tempo depois ele bate na porta do banheiro chamando seu nome, ela abre e o abraça forte até fazê-lo parar de chorar.
Ele de justifica como se ela o estivesse culpando, explica que estava dormindo, que não podia controlar, foi mais um de seus pesadelos. Ela só o olha e diz que sabe, que entende, isso faz com que ele tente explicar toda a situação que acabara de ocorrer e que ela não parecia ter entendido: tentou matá-la enquanto dormia, ela deveria estar em pânico, deveria ter saído correndo, deveria sentir medo.
Repete, ela repete que entende, que sabia que foi um pesadelo e que está bem. As coisas começam a se acalmar, ele deita em seu colo como sempre faz quando está aflito, ele começa a pensar melhor e diz que não é certo, que aconteceria mais e mais vezes sem que pudesse controlar, que isso a machucaria e poderia ser mais grave que agora, que não poderiam ficar juntos.
Podia até não parecer são, mas ela não quer isso, não quer ficar longe dele, sabe dos riscos, conhece as feridas, mas também conhece o seu limite e sabe até que ponto pode ir. Não queria não poder fazer o possível, junto a ele, para que tudo voltasse ao normal, mesmo que houvesse por vezes choro, mesmo que houvesse por vezes um pedido de perdão. Ela queria ir até onde pudesse chegar e quando chegasse o dia que não conseguisse fechar os olhos por medo de certo avisaria, “Deixe que eu decido até onde posso aguentar”.

Uma noite ele pega no sono abraçado a ela, ele não tem mais pesadelos e ela consegue dormir.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Conversa de sofás

por: Paula Rios


Sentados no sofá, e com aquela sensação de tentar deixar tudo pra mais tarde (inclusive o verão), trocaram de canal e começaram a ver uma reportagem sobre o aquecimento global. Trocaram olhares e mudaram de canal de novo. Dessa vez, a reportagem era sobre culinária. Mais especificamente, sobre os prazeres da culinária francesa. Ele não entendeu uma vírgula, enquanto ela anotava todas. Olhou pra ela como quem pedia piedosamente para não assistir aquilo, pelo amor de Deus. Mas a concentração dela era tanta, que nem viu quando ele levantou do sofá e foi tomar um banho e saiu. Quando notou, estava em casa sozinha. Anotando 832 receitas por minuto. De doce, à parmegiana, suflê e etc. Por fim, rendeu-se e desligou a televisão.


Foi pra cozinha preparar um daqueles pratos. Desistiu quando queimou o fundo da panela pela terceira vez. Ele chegou, tirou os sapatos, deu um beijo nela e devido às condições da cozinha, pegou o telefone e pediu comida japonesa. Ela deu um sorriso sem graça e percebeu que não ficava sozinha com ele havia muito tempo. Pense: dois filhos pra criar e trabalhando. Era dureza. Ela nunca reclamou. Acho que ela até gostava disso tudo. Da vida numa cidade pacata. Do cachorro no quintal. Das crianças chorando. Mas ficar sozinha com ele, a deixava nervosa. Tinha medo dele não querer nada com ela. Ou de ficarem sem assunto. De brigarem por qual canal sintonizar num domingo de tarde. Desejou desesperadamente que as filhas chegassem do acampamento. Ou que o telefone tocasse. Ou que o mundo desabasse sobre sua cabeça. Tudo, menos ficar no silêncio com ele.


Notando seu desconforto, o bom marido simplesmente não falou nada. Apenas a abraçou. Isso a deixou mais segura, mas não menos nervosa. Então, ele sussurrou baixinho no ouvido dela: “Eu ainda te amo, sabia?” Como se ele tivesse lido seus pensamentos. Rubra de vergonha, ela apenas o abraçou mais apertado.


Mais tarde, eles voltaram para o sofá. Agora, com a esperança de ver algum filme bacana na TV. Em vão. Então, ela sugeriu que locassem um. Ele concordou e saiu para a locadora mais próxima. Chegando em casa, a viu dormindo no sofá. Riu da incapacidade dela de conseguir ver um filme todo até o final e que desta vez tenha conseguido se superar. Levou ela pro quarto, a cobriu e deitou ao seu lado. Na hora que ia apagar as luzes, ela vira pro lado e dá um beijo nele.


- “Obrigada pela noite maravilhosa.”
- “Mas você nem viu o filme que queria.”
- “Não importa. Eu ia perder o final de qualquer jeito mesmo!”


Sorriram e cada um virou pro canto na tentativa de apagar logo de uma vez e não ter muito tempo pra pensar na audiência de separação no outro dia pela manhã.


*****

As ondas nos trazem esperança
As torres nos mostram o fim


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Agradecimentos à Tia Paulinha que ficou a semana passada toda escrevendo um texto para o blog. Esse foi o ultimo que ela escreveu e também o melhor de três. Esperando agora os outros colaboradores.

domingo, 21 de março de 2010

Amores Imperfeitos

Às vezes é assim, tiro o dia para um programa individual, não estou falando do meu novo vício com o twitter. Trabalhei pela manha e fui ao shopping pela tarde, gosto de ir ao cinema sozinha e acredite, é impagável. Tem seu encanto ir com os amigos, tem seu encanto estar de mãos dadas no cinema, mas é diferente de ir sozinha, é revelador ir sozinha.
Sentei esparramada em uma das poltronas centrais, música clássica enquanto o filme não começa e um mega sanduíche gorduroso com Coca-cola e batata frita. Logo temos as risadas, as aflições, os romances, minha camisa suja e tudo mais. Bom, o filme acaba desagradando a maioria, mas eu gosto, acho ótimo o final. Ele acaba sozinho, sem a mulher que estava apaixonado e que era a única que o faria parar em um lugar. Termina também sem amigos. Ele termina sozinho mesmo tendo se esforçado para ter aquilo tudo. As pessoas se levantam e comentam ao sair da sala “que final estranho”. Eu levanto também e rio quieta e feliz, acho sensacional.
Gosto de finais mal fracassados (definição disso é que o mal fracassado vai além do fracasso), aqueles trágicos, onde as pessoas que esperávamos encontrar na cena contente do final do filme, morrem. Ou onde os amores promissores não dão certos.
Não apenas para filmes, mas para livros, para textos, para músicas. Desencontros amorosos são, definitivamente, um charme. Não, não me entendam mal, não acho que seja uma coisa feliz e bacana para se viver, mas é o que existe de mais inspirador.
Entenda o que quero dizer, na vida real, além das melodias e letras, além dos créditos de produção, isso não é legal. Meninas chorando, pote de sorvete na hora da fossa, falta de esperança, noites solitárias em um aeroporto e mensagens bobas em um domingo pela tarde não é uma realidade boa. Mas se esse sofrimento é bom para alguma coisa, bom, é bom para inspirar e fazer da vida um lugar de boas poesias, músicas e romances trágicos que são completamente apaixonantes e deliciosos.
Não venha tentar criar romances desencontrados em sua vida de cheiros, mas se for para me encantar e inspirar, apenas a mim, tudo pode dar errado no final.

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Essa semana, se tudo der certo, teremos companhia aqui no blog.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

. sabe-se lá .

Todos os dias, ou apenas nos dias que estava em plena atividade pensante, tirava a conclusão que ele era um idiota, um mané, um bocó, bobão e babaca por não ficar com ela. Ela era uma boa garota, não era feia nem burra e talvez fosse o suficiente para ele, se é que nesse mundão alguém é suficiente para outro alguém.

Realmente, ele era burro pra danar por não ficar com ela. Até que um dia amanheceu ou a noite surgiu, sabe-se lá, com ele gostando dela ou coisa assim. Ela riu, juro. Mas era um riso todo embasbacado com a situação. Ele só podia ser um imbecil, porque um cara inteligente e charmoso merecia coisa muito melhor. Só ele que não nota isso?

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Outro ser humano estúpido.

-Você é linda. Você sabe disso,né?
Ela fica vermelhinha enquanto concorda comigo.
-A gente vai se ver de novo? – ela pergunta, e pra ser sincero acho que vou me arrepender da resposta.
-Não às cinco e meia da madrugada.
Ela mexe com um dos pés, rindo baixinho pra si mesma.
Estou quase indo embora quando ela diz:
-Ed?
-Oi, Sophie?

Ela fica surpresa, sem saber como eu sei o nome dela.
-Você é algum tipo de santo?
Aqui dentro, eu dou uma risada. Eu? Santo? Faço uma lista do que sou. Taxista. Vagabundo da redondeza. Modelo de mediocridade. Um desastre sexual. Péssimo jogador de cartas.
Digo minhas palavras finais pra ela:
-Não, não sou santo Sophie. Só mais um ser humano estúpido.
A gente sorri, e eu vou embora. Sinto que ela fica me observando, só que eu não olho pra trás.


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Alguma parte do livro “Eu sou o mensageiro”, de Markus Zusak que escreveu também 'A menina que roubava livros', lembra dele agora né?

Pensamento profundo nº1

Não sei o que o Wagner pensa de mim, definitivamente desisti e comecei a não querer mais saber depois da minha adolescência na casa na rua Ary Parreiras, altos, bairro Niterói. Eu acordei pensando nisso, uma vez falou comigo que chega uma hora em nossa vida que devemos nos preocupar com o que as pessoas acham da gente, ou coisa assim. Ele queria dizer com isso, sem mais filosofias, que eu devia usar salto alto, unhas sempre pintadas e me tornar uma dessas meninas vaidosas que ele gosta de namorar. Eu não faço muito bem isso até hoje e não sei o que me fará mudar completamente. Talvez um belo rapaz alto e com um corpo atlético, talvez. Porém não me importo muito com isso, na verdade, tenho bons motivos em não me importar com isso e mal sabe o Wagner que teve muita influencia da irmã dele ser como é.

Eu disse que acordei pensando nisso porque acordei me arrumando para ir cortar o cabelo. O Wagner detestaria se soubesse o que eu queria fazer. Ele nunca me elogia completamente, ele detesta a forma com que me visto e o meu tênis roxo. Eu reclamo toda vez que ele vem com esses papinhos, ele diz que sou mau-humorada e acha que tem razão.

Então, deixando de lado o Wagner e o jeito estranho dele dizer que me ama, ou seja lá Deus o que isso quer dizer, eu fiquei no cabeleireiro lendo e esperando o atrasado do moço chegar para começar a usar a tesoura. Apenas eu pensando no que realmente queria fazer ou o que agradaria a alguém e o que minha avó e o Wagner gostam e ou o que qualquer outra pessoa do mundo falaria se eu cortasse o cabelo e escambau a quatro... Daí estava igual a uma idiota porque uma decisão simples, cortar o cabelo, se tornou um dilema no meu mundo preto e branco. Cabelo cresce e ia ficar praticamente igual ao que estava antes. Eu não ia fazer sexo, ou fumar, ou beber exageradamente sendo uma ridícula. Não ia andar pelada na avenida sambando e nem sair beijando qualquer cara ridículo que eu encontrasse em um bloco no carnaval. Eu só ia cortar o cabelo, coisa que daqui a um tempo seria obrigada a fazer novamente&novamente. E cara, eu queria apenas cortar o cabelo, nem era curto, só em camadas, naturalmente tecnicamente. E simplesmente quase não o fiz...

Enfim cortei o cabelo, não fiz as unhas nessa semana, continuo andando de tênis e chinelo pela rua e ainda fui cantada no meio do caminho quando estava voltando para casa e o cara nem era pedreiro e não me chamou de gostosa, ele falou que eu estava linda. Então eu fiquei bem, porque apesar de ‘para nós nunca ser o bastante viver com quem é apenas o que é’, às vezes dá certo, não só pelo cabelo.

Diário do movimento do mundo nº1

Dormi tarde, fato. Estava pensando que valeria dormir tarde porque pelo menos nessa semana não teria que acordar cedo. Então fiquei lá entretida no netbook que minha avó comprou, tentando enxergar as letras naquela tela minúscula e conversando com mil pessoas ao mesmo tempo ,assuntos que pediam o máximo de atenção da minha parte, e a letra definitivamente me atrapalhava toda.

Então a chuva começou a cair, e caiu com força. Fiquei extasiada com a chuva caindo e fui até a janela. Sim, desde dezembro que eu não vejo a chuva cair fazendo um barulho significativo. Mas eu sabia que a manhã seguinte seria de Sol e um calor sufocante, então me prendi aos momentos (talvez breves) onde a chuva esteve presente.

Tentei dormir com a janela aberta, mas não teve jeito e tive que fechá-la. Mas também não consegui dormir, fiquei acordada pensando. Peguei o celular para escutar música ou uma mensagem do meu querido Ed, mas não fiz isso também. Fiquei olhando para o celular por um tempo até que peguei um livro. “Eu sou o mensageiro” de Markus Zusak, ele é demais. Um escritor de palavrão! Até que depois de seis capítulos decidi deitar e finalmente peguei no sono

Eu sonhei essa noite. Não contei a vocês, mas faz muito tempo que eu não sonhava. Eu dormi bem e sonhei bem. Bom, chuva e sonho me fizeram bem...
...até o dia seguinte.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

A história de um siri

O siri curtia o mar,
mas foi se arranjar na vida voltando às suas origens nas montanhas prateadas em noite de lua.Encontrará o siri terras que lhe ofereçam condições de cavar seu abrigo como nas areias do mar?
Sabe lá...Enquanto isso,
agita-se e abranda-se o mar, seguindo o curso das marés que o mover da lua orienta.
Dois espaços e a mesmo fonte de luz.
Duas faces do destino...
Linhas paralelas que seguem os rumos do vento.
O siri e alguém do mar...
Haverá ventania que os transforme em retas perpendiculares? Se houver,
é certo que serão concorrentes,
entretanto,serão felizes,
pois tudo o que se espera é um ponto em comum.
Um ponto de encontro para o contentamento da geometria.
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Esse é um escrito da Aline Martins Lourenço, uma das minhas companheiras no trampo que curte boas músicas e livros & livros. Como ela escreveu isso pra nada, eu usei pra alguma coisa. Espero que gostem.




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"Não, eu não sambo mais em vão,
o meu samba tem cordão

O meu bloco tem sem ter e ainda assim
Sambo bem à dois por mim.
Bambo e só, mas sambo, sim.
Sambo por gostar de alguém, gostar de..."
(Samba A Dois – Los Hermanos)


sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Clima/tempo.

A última vez que choveu foi no final de dezembro. Ficamos meio contrariados, queríamos ir para praia, não que eu curta praia, mas precisava tirar uma marca ridícula de roupa que estava em mim do dia anterior. Mas choveu. Eu não esperava e ela veio.

Depois disso não sei o que aconteceu, um silêncio dos céus. A chuva do final do ano fez com que abrisse um tempo seco e quente na região espírito-santense. Existe um vento que alivia em alguns momentos o calor, mas era tudo tão abafado e desconfortante. Comecei a ficar de mal - humor. Não estava bem, mesmo. Não consegui dormir por não achar conforto na minha posição pré-determinada para o sono, sim, durmo na mesma posição todas as noites, é mais fácil. Recomendo essa técnica.

Sem chuva nas primeiras duas semanas e eu me sentindo excluída do que parecia ter pego o Brasil inteiro. O maldito el niño esqueceu que os capixabas também amam? Cadê a merda da zona de convergência? É para isso que ela serve? E para onde foi a umidade vinda do norte dos país?

Quem estava em São Paulo não aguentava mais e eu acordava todos os dias metendo minha cara para fora da janela do quarto tentando ver um céu nublado. Às vezes ficava na cama tentando escutar um som de chuva. No lugar disso, levanto praguejando. Mas que puxa, nem um céu nublado para iludir a garota aqui.

Vai saber, hoje acordo com os olhos inchados de quem teve pouco tempo de sono. Coloco o uniforme de trabalho tentando imaginar a hora de terminar meu serviço, voltar para a cama e dormir esse sono que meu corpo pede. Saio do prédio e pasmem (!) o chão está molhado e os carros também. Fico parada encarando o céu, ainda está escuro, mas não indica mais chuva. Tento me convencer que é cedo demais para ver nuvens, o Sol não acordou, igual a mim.

Sabe quando uma criança se sente traída? Fiquei pensando em como não esperaram por mim para o fenômeno de águas caindo. Que coisa! Eu tanto esperei por esse momento e ele passa sem que eu veja, ele simplesmente passa como se o momento não fosse meu, não fosse para mim. Ta que o vapor não pensou em se condensar para satisfazer minhas vontades, mas ele podia pelo menos esperado eu acordar, ninguém esperava esse momento mais que eu e apenas os porteiros dos prédios o viram acontecer.

Fico agora olhando os sites de metereologia tentando acreditar neles como quem acredita no horóscopo. Dizem que dias de chuva virão, eu fico a acreditar. Espero que a chuva venha enquanto eu estiver acordada, não quero perder nada, talvez fique até sem piscar.


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Vai Ana C., diz que tudo faz sentido.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Um mundo por empadas

Desejo louco de comer empadas, naqueles momentos que pensamos que só seremos felizes quando fizermos algo, mas a verdade é que se não o fizermos o mundo acabaria por descuido nosso. São os desejos da alma, diriam.
Então compro, três de uma vez só, para ter certeza de dever cumprido. Olho com um olhar voraz para todas elas, o vendedor nota e me aconselha esperar um pouco, estavam muito quentes, “Coma com cuidado”.
-O senhor não entende, o mundo pode acabar!
Vale à pena ter a língua queimada para salvar o mundo?, perguntariam.

Eu arriscaria minha língua para descobrir.



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Passamos Natal, bem. Os meus meninos chegaram, barulhentos. Em qualquer momento, feliz. Fomos para Itaperuna, quietos. Voltei já em 2010, contrariada. Recebi visita, companheira. Entrei para o twitter, por impulso. Entrei pro formspring, por tédio. Sai dos dois, racionalmente. E estamos aqui em um texto, absurdo.